Setembro, três recolhas ao mesmo tempo e um caracol chamado Quim
A história verdadeira da primeira semana de aulas no grupo da turma - 60 mensagens por ler às 6h58 e uma transferência de 4,99 € sem descrição. Vida de tesoureiro de turma, com um sorriso torto.
Terça-feira de setembro, 6h58 da manhã. Ainda não pus os pés no chão e o grupo da turma já tem 60 mensagens por ler.
Abro um olho. O outro fica de reserva.
Três recolhas, uma semana, zero datas a sério
A escola arrancou como uma máquina de lavar a meio da centrifugação. No mesmo dia abriram três recolhas: o kit de material, o seguro escolar e o fundo da associação de pais. Todas "até sexta". Sexta qual, não se sabe. Sexta em abstrato, uma sexta filosófica.
E eu, que fui tesoureira da turma numa reunião em que me distraí a olhar para a janela, lá fico a ver o telemóvel a encher-se como uma banheira sem tampão.
A lista do que era para pagar estava afixada desde segunda. Fixa. No topo. Com um pino.
O grupo, por ordem de chegada
Primeiro entra o clássico:
- Isto é para quê ao certo?
A lista, meu amigo. A que está fixa desde segunda.
Depois a Mariana:
- Posso pagar em duas vezes?
Logo a seguir o Diogo:
- Já paguei 🙂
Não pagou. Verifiquei três vezes. Não pagou de todo.
E então, do nada, uma foto de um caracol que apareceu na aula de Educação Física. Catorze gostos por baixo do caracol. Catorze. As recolhas tinham dois.
Havia ainda um áudio de 4 minutos e 51 segundos de um pai que ninguém no grupo consegue identificar. Não o ouvi. Ninguém o ouviu. Vive lá, como um móvel antigo que já ninguém mexe.
A transferência anónima que me tirou o sono
A meio disto tudo, chega ao meu MB Way uma transferência de 4,99 € em vez de 5, com a descrição "quota".
Quota de quê? Das três? De uma? A quem pertence este cêntimo em falta?
Uns pais pagam por transferência, outros por MB Way, e ainda há os do dinheiro vivo. Esses mandam envelopes na mochila de uma criança de sete anos, como se fosse mala diplomática. O miúdo não sabe que transporta a contabilidade da turma entre a merenda e o estojo.
Detetive às 23h40
Foi por isso que, às 23h40, me apanhei a cruzar valores com nomes numa folha de cálculo com um nome que é um pedido de socorro: quotas_2026_FINAL_v3_corrigido(2).xlsx.
Sim, tenho um problema com folhas de cálculo. Já falámos disso com a minha terapeuta imaginária.
A coluna não fechava por 5 cêntimos. Cinco. E eu, incapaz de dormir com uma coluna que não fecha, meti os 5 cêntimos do meu bolso, como quem tapa uma fresta na parede só para deixar de a ver.
E os suricatas, já agora
Sabias que os suricatas decidem em grupo por uma espécie de votação? Fazem um barulhinho, e quando barulho suficiente concorda, o grupo avança. Democracia peluda no deserto.
Enfim, voltando às quotas. Nós, no grupo da turma, também votamos. Só que votamos em caracóis.
Ah, e depois construímos uma app
A dada altura pensei: isto não pode ser assim. E, pronto, acabámos por fazer uma app para isto - a ClassKasa, um link, cada família vê o que deve, o dinheiro entra com nome e tudo. Enfim.
Adiante.
Na quinta-feira ninguém falou das recolhas. Falou-se do caracol. Chamaram-lhe Quim. Votou-se, com catorze gostos e um coração, que o Quim ficava a viver no terrário da sala.
Zero stress. Pelo menos nos próximos quinze minutos.